terça-feira, 11 de julho de 2017

Quem foi que chamou a polícia

Minha filha é, como ela mesma diz, uma princesa, mas, quando acorda de mau humor ou é contrariada, é outra pessoa, perde toda a beleza, afasta todos de perto dela. Não sei quem a ensinou ou o que a tem feito chorar como chorava nos primeiros meses de vida. Às vezes, o acesso de choro dela, que hoje completa dois anos e sete meses, é tão preocupante que até fico com medo de algum vizinho chamar a polícia para ver se ela está sendo maltratada, como aconteceu na última casa da qual nos mudamos, no primeiro dia de outubro de 2016. Como não era dezembro, o décimo primeiro dia de abril iria passar igual a todos os 11 dos outros meses da vida de Amy: esquecido. A fim de me levar ao estande de vendas da construtora do imóvel que havia dias ela estava sonhando em comprar, cuja construção já estava bem adiantada, Priscilla pediu aos pais dela que ficassem com nossos filhos até voltarmos. Embora a visita, a segunda de muitas que ainda iríamos fazer pelos próximos dias, tenha sido mais demorada do que esperávamos, ficamos sossegados, pois achávamos que o máximo de trabalho que as crianças iriam dar aos avós delas seria, no caso de Amy, querer colo, mamadeira e troca de fralda e, no de Mitsuo, que brincassem com ele. Mas, diferentemente do que imaginávamos, eles, ou, melhor, ela deu tanto trabalho que foi preciso chamar a polícia, que, atendendo a uma denúncia por maus-tratos, foi averiguar o que estava acontecendo com as crianças. Imagine o susto que os avós de meus filhos levaram ao serem surpreendidos pelos policiais, os quais viram que todos estavam bem, inclusive a tia, que havia chegado depois, tudo não havia passado de um mal-entendido, provocado pela choradeira incontida de Amy, que deve ter sentido falta do colo dos pais. Rindo para não chorar desse lamentável episódio protagonizado por nossa família, Priscilla e eu só tínhamos duas pessoas suspeitas de terem chamado a polícia: a vizinha do outro lado da rua, que, por morar em frente, mesmo sem querer, acabava vendo tudo o que se passava no cortiço onde vivíamos, e a moradora da casa ao lado, de cujo funk pornográfico e de cuja sujeira, que, como dava para ver, era um prato cheio para ratos, baratas e moscas, só nos livramos quando ela entregou as chaves do imóvel, deixando a entrada para quem se incomodasse com sujeira e vermes limpar. Em toda a minha vida, poucas vezes vi uma mulher tão porca, que, para não dizer que não tinha quem a ajudasse a cuidar da casa e dos filhos, um dos quais certa vez passou a noite toda chorando não sei pela ausência da mãe ou pelos maus-tratos que sofria dos irmãos dele, tinha uma moçoila de no mínimo 15 anos, como nunca tive uma vizinha que tivesse batido tanto à minha porta pedindo emprestada a chave para abrir o portão do quintal que ela, os filhos e o namorado dela, mais do que os outros moradores, não conseguiam manter fechado. Não era à toa que, toda vez que eu ouvia o berreiro que minha princesa, que ainda não tinha idade para ouvir as broncas que hoje ouve de mim, fazia na hora do banho, aconselhava a mãe dela a levá-la mais cedo para a banheira.

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