sábado, 20 de maio de 2017

Episódios inesquecíveis de quando trabalhei em Alphaville

Trabalhei duas vezes em Alphaville, o lado rico de Barueri, ou onde pobre só se sente bem-vindo como empregado ou prestador de serviços: em 1985, quando o depósito de uma grande rede de supermercados onde comecei carimbando notas fiscais, abrindo e fechando cancelas e pesando caminhões se mudou de Osasco, e em 1997, quando a segunda empresa onde fui revisor de texto se mudou de São Paulo. Foi nesta, da qual só saí quando o departamento de tradução e legendagem foi fechado, que assisti a alguns dos episódios mais inesquecíveis, não necessariamente nesta sequência. O primeiro foi o dia em que, como se estivesse em um filme de ação, o “Alemão”, um dos motoristas que paravam de ponto em ponto pegando passageiros que andavam cansados da demora e do desconforto dos ônibus precisou pisar fundo no acelerador de seu furgão, fazer várias ultrapassagens forçadas e cortar caminho, passando por cima até de guias, para se livrar da perseguição implacável dos homens da segurança do local, o que ele só conseguiu depois de chegar, pela rodovia Castelo Branco, a Osasco, onde os guardas da cidade vizinha não poderiam fazer nada contra ele. Eu estava em um dos pontos da mesma avenida onde havia começado a fuga cinematográfica mencionada acima quando, perto de um lugar onde o asfalto estava fofo, tomei um banho de lama do ônibus que eu iria pegar para voltar do trabalho noturno. Por falar em trabalhar à noite, nunca o cansaço e o sono me atrapalharam tanto como no dia em que a pressa para entregar o filme O Sonho não Acabou me fez passar 24 horas acordado, só tendo tempo para ir para casa, jantar e voltar para o trabalho. A segunda-feira em que, conforme havia sido combinado no sábado, todos foram trabalhar de preto, inclusive, coincidentemente, a encarregada do setor, era para ser apenas mais um dia de bom humor do pessoal de nosso departamento, mas os colegas que, a meu ver, não tinham tempo nem lugar certos para fazer alguma reivindicação, como o descanso no sábado, decidiram transformar a brincadeira em um protesto, que, infelizmente, acabou provocando a demissão do “Selvagem da Motocicleta”, como eu gostava de chamar o marcador de legendas que ia trabalhar com as roupas e os cabelos desarrumados que não deve ter escapado das críticas da encarregada, da mesma forma que a marcadora que ficou estourando um plástico até a última bolha não escapou da bronca do “colaborador” que a encarregada havia chamado para substituí-la nas férias. Ironicamente, foi o auxiliar da “chefa” que o destino, cruel e traiçoeiro, acabou escolhendo para ocupar definitivamente a cadeira dela. Outros episódios memoráveis são de um sábado em que, por causa de óleo na pista, vários carros deslizaram, fazendo um dos Tiagos da marcação, o com “h”, rir à beça, e de outro em que, do outro lado da rodovia, um homem ameaçava pular do topo de uma torre de transmissão de energia elétrica. Mas nenhum foi mais do que o do dia 19 de maio, quando, para surpreendermos nossa colega Jaqueline, que, durante pelo menos duas semanas, ficou nos lembrando do aniversário dela, todos, inclusive a tradutora Telma, que era quem mais estava por trás de todas as festas do setor, fingimos que não sabíamos que ela estava ficando um ano mais velha, deixando para comemorar no dia seguinte. Quando vimos a sempre sorridente marcadora encerrar o dia de trabalho aos prantos, só queríamos que o dia 20 chegasse logo para pedir desculpas a ela e, com festa, claro, desejar-lhe muitas felicidades e muitos anos de vida.

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