domingo, 23 de abril de 2017

De volta ao Brás

O número errado de um calçado que minha mulher havia comprado para nossa filha me fez voltar três i-na-cre-di-tá-veis vezes ao Brás, famoso bairro da capital paulista em cuja estação do metrô homônima eu não desembarcava desde que minha amiga Hebe entregou a chave do imóvel onde morou antes de se despedir do Brasil pela, se não me engano, segunda vez, em 1996. Na primeira ida, quando eu deveria ter pedido a troca do 23 pelo 24, acabei trazendo o mesmo 23, porque a dona da banca não havia visto, nem eu, que o número que estava na caixa era 22; na segunda, quando a compradora já havia previsto que o 24 iria ficar perdido logo, pedi exatamente o número seguinte ao que estava na embalagem; e, na terceira, a única em que, para não diminuir minha fome na hora do almoço, não gastei dinheiro em um dos quiosques que vendiam pãozinho de queijo na estação, por conta própria, porque não havia conseguido falar por telefone com minha mulher, até que enfim, peguei o número certo, não no mesmo modelo, que, como já era de esperar, havia acabado. Quando soube que eu iria ao centro de compras popular que ele frequenta, o neto mais velho de minha mãe tentou me convencer a passar em uma banca vendendo tênis a 40 reais, como se, hoje pegando emprestadas as moedas de meus filhos para pagar a condução, eu pudesse me dar ao luxo de ter tamanha quantia em minha conta bancária. Além do mais, o tênis que ele me deu em uma de minhas últimas visitas à casa dele ainda nem foi estreado, já que, só para ir de casa ao mercado ou ao hospital, o surrado tênis de quando eu ainda era solteiro e o já aberto sapato que, com muita insistência, minha mulher conseguiu me dar em meu último aniversário me bastam.

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