segunda-feira, 27 de março de 2017

Sushi com farofa

Não fui à última festa de minha vida como solteiro, a que minha amiga Silmara realizou em 26 de março de 2011. É que no dia seguinte, novamente, eu estaria de mudança, desta vez para Embu das Artes, cidade perto de onde o trabalho de minha namorada, com a qual eu iria morar em uma casa alugada, havia mandado, ela deixando a casa dos pais e eu, Osasco, onde estava desde que havia chegado da Bahia, em 1974. Quando, no domingo em que passei na casa da família dela para dizer o que ela já havia anunciado, vi a cara de tristeza ou decepção da mãe, do pai e da irmã dela, senti-me como um bandido raptando a mocinha, coloquei a mala e o único móvel que fiz questão que ela levasse, uma poltrona vermelha, no carro que eu havia chamado para carregar a mudança e fui embora o mais rápido possível, até porque ainda precisava ir ao mercado fazer a primeira compra da casa. Acostumado a não sei quantos encontros e despedidas entre mim e ela, que conheci em 1997, depois de uma reportagem de jornal da qual participei, e conhecendo a vida sossegada em que ela vivia com a família, sem se preocupar com casa, comida e roupa lavada, pensei que, depois de ver que a vida comigo não seria nada fácil, ela iria voltar correndo para a casa dos pais. Nem pensar, ou, se ela pensou, desistiu da ideia, porque morou em uma casa onde até de madrugada pedia que eu a salvasse das baratas, encarou o tanque até comprarmos uma máquina de lavar roupas, aprendeu a fechar a panela de pressão, acostumou-se a comer coentro, quiabo, jiló e maxixe, não me deixando nenhuma dúvida de que estava comigo para o que desse e viesse, menos comer tomate com casca, passar roupas e dormir pouco. Vieram a gravidez do primeiro filho, o que aconteceu após seis meses, a mudança para São Paulo, onde ela voltou a ficar perto da família, e um caminhão de preocupações, a maior delas a da conta do aluguel, que nos obrigou a trocar a vida aparentemente de bacana em um apartamento perto das rodovias Anchieta e Imigrantes por uma vida nada tranquila em um cortiço em uma rua sem saída próxima às mencionadas rodovias. Quando achávamos que morando em uma casa cujo valor do aluguel era metade do quanto pagávamos iríamos conseguir juntar dinheiro para comprar um imóvel, a notícia de que nossa família iria aumentar nos chegou de surpresa logo que aportamos no novo endereço, de cujo incômodo do som alto e das brigas dos vizinhos e das baratas só nos livramos depois de 30 meses, quando o contrato do aluguel venceu. O surpreendente anúncio da chegada de nosso segundo filho não nos teria deixado tão desesperados se nossa forçada mudança de endereço já não tivesse sido indício de que nossa situação financeira não estava boa, a qual piorou quando, por causa da perda do principal cliente da empresa para a qual presto serviços, comecei a trabalhar menos e, como se não bastasse, a receber o pagamento em prestações, duas vezes no mês, o que, para quem ainda tem um trabalhinho pingado nesta crise econômica sem precedentes pela qual mais de 10 milhões de brasileiros estão passando, era melhor do que não receber nada. Se a esta altura eu já estivesse me sentindo bem na foto, ainda não estivesse cortando gastos, fazendo todo tipo de trabalho que consigo para ajudá-la a diminuir o peso nas costas, até dezembro, iria perguntar-lhe se ela quer se casar comigo, porque acho que, depois de comer mais de um quilo de sal, passar seis anos de união instável comigo, afinal, nenhum relacionamento pode ser chamado de estável quando enfrenta tempestades, a menina dos meus olhos já me conheceu o bastante para dizer se ainda sirvo para ser marido dela.

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