sábado, 19 de maio de 2018

O Kid Vinil que conheci

Quase todas as pessoas que conheço que curtem rock têm uma história para contar sobre Kid Vinil, morto em 19 de maio de 2017, aos 62 anos, depois de passar mal em um show de que participava em Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais, e ficar um mês em coma, em São Paulo, para onde foi levado. A minha começa como leitor dos muitos textos que o jornalista, cujo nome verdadeiro era Antônio Carlos Senefonte, escreveu sobre música, tendo sido o último lido por mim o prefácio à edição brasileira de “Tocando a Distância: Ian Curtis & Joy Division”, biografia escrita por Deborah Curtis, viúva de Ian. Não se contentando em apenas falar de música, ele virou cantor, fazendo sucesso fora dos palcos subterrâneos principalmente com a banda new wave Magazine, de “Sou Boy” e “Tic-Tic Nervoso”. Como telespectador, assisti aos programas “Som Pop” e “Boca Livre”, que ele apresentou na TV Cultura nos anos 80. Ouvinte de alguns dos programas radiofônicos apresentados por ele, eu já o havia visto pessoalmente, à saída de um concerto de rock, quando, em 1992, passei na Brasil 2000, rádio universitária paulistana em que ele apresentava um programa aos sábados, para falar com ele sobre uma festa que eu e um amigo fazíamos. Por falar em festa, outro Kid Vinil que conheci foi o DJ, tocando em muitas das baladas que frequentei.

domingo, 29 de abril de 2018

O que meu filho vai ser quando crescer



Meu filho ainda não tem idade para pensar em trabalhar, até porque, se tivesse, estaria me ajudando nos afazeres domésticos, mas já sabe o que quer ser quando crescer: motorista de betoneira, embora, se dependesse da vontade da avó materna dele, que morreu quando ele tinha três anos, ele seria engenheiro (civil), já que, desde que aprendeu a andar, ele é apaixonado por caminhões, tratores, motoniveladoras, rolos compressores, bate-estacas, bolas demolidoras, guindastes, britadeiras e tudo que tem a ver com construção. Quando ele me revelou sua nova futura profissão, não o levei a sério, porque, até dias atrás, ele dizia que iria ser bombeiro, tendo até já ido duas vezes
ao posto do Corpo de Bombeiros na Vila Mariana, no fim das férias escolares do meio de 2017, como se não bastassem os vídeos aos quais ele ainda não se cansou de assistir, a frota de caminhões que já desenhou, ganhou e, com minha ajuda, montou. Na primeira, em um fim de tarde, visitamos o museu, onde, por meio de fotos, documentos, equipamentos e outras lembranças, conhecemos um pouco da história do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo desde sua criação, em 1880, e, na segunda, um domingo chuvoso, graças à gentileza de um dos homens da corporação que nos atenderam, fiz um retrato de Mitsuo, que foi com seu uniforme de bombeiro, em um dos veículos de combate. Certa vez, meu primogênito fez a mãe dele parar o carro perto
de uma galeria onde nossos heróis estavam atendendo a um chamado só para entregar um desenho que ele havia feito para eles. Sei que ainda é cedo para ele escolher a profissão que vai exercer, mas espero que ele não escolha a da mãe (professora) e muito menos a do pai dele (revisor de texto) e ganhe muito dinheiro com o que vier a fazer profissional e honestamente.
 
 

sábado, 28 de abril de 2018

Os jornais que eu vendia e não lia

A notícia de que o “Jornal do Brasil”, centenário diário carioca que havia deixado de ser impresso em 2010, voltou, no último 25 de fevereiro, me deixou tão surpreso – uma vez que o periódico retorna já sabendo que o jornalismo impresso está com os dias contados, passará a existir apenas na internet – quanto me fez lembrar de que nunca sujei tanto as mãos de tinta do que na época em que vendia jornais na rua. Quando, entre 1976 e 1979, minha mãe e meu padrasto me disseram que não estavam gostando nem um pouco de me ver à toa na vida, só assistindo televisão (na casa dos outros), brincando (na rua) e lendo gibi, ficou bem claro para mim que já estava na hora de fazer alguma coisa para ajudá-los a pagar as despesas da casa, ou, melhor, do cômodo. Fui vender jornais para o dono da banca que ficava na avenida Getúlio Vargas e, depois, para o da que ficava na esquina da Costa e Silva com a Médici, em Osasco, com a diferença de que, na primeira, as vendas eram feitas não só na rua, no fim de semana, mas também na banca, depois que eu voltava da escola. Não me lembro de quantos exemplares ajeitava embaixo do braço, mas, pela quantidade de ruas pelas quais tinha de passar para não voltar com nenhum jornal e pelo peso do “Diário Popular”, de “O Estado de S. Paulo” e da “Folha de S.Paulo”, de cujo caderno infanto-juvenil, “Folhinha de S. Paulo”, eu me apoderava quando não tinha dinheiro para comprá-lo para usar nas aulas de leitura e interpretação de texto, deixando algum exemplar incompleto, sei que “A Gazeta Esportiva”, o “Popular da Tarde”, irmão do “Dipo” e concorrente da “Gazeta”, e a “Folha da Tarde”, de propriedade da Folha da Manhã, mesma empresa que publicava a “Folha” e o “Notícias Populares”, matutino sensacionalista que, como se dizia, se torcesse, saía sangue, eram os que eu mais levava, dos quais só a “Folha” e o “Estadão” ainda existem.

domingo, 8 de abril de 2018

Abrindo mão da guitarra


Desde janeiro de 2018, a boa e velha escola do rock tem sido revisitada por mais uma banda, o Castelo Novo, que de novo mesmo só tem o nome, a idade dos integrantes (Laurence Santos, teclado, 22; Cauã Cardoso, bateria, 23; e Flávio Capi, baixo, 39) e, como já foi dito, o tempo de existência, porque do repertório musical da recém-chegada banda só saem clássicos de grupos dos anos 60, 70 e 80, como Beatles, Led Zeppelin, Creedence Clearwater Revival, Refugee e Elton John, sendo este último a principal influência de Laurence, principalmente nos primeiros anos de carreira do cantor britânico. Segundo o tecladista, com o qual bati um papo depois da apresentação que ele fez no Sampa Jazz Bar, em São Paulo, no último março, acompanhando Aline Bischoff, que ocasionalmente participa das apresentações do trio, “a proposta da banda é fazer rock sem guitarra, simples e direto, algo muito alternativo, [porque você] não vê nada parecido, pelo menos na região de Osasco”. Tendo já tocado em diversos bares da cidade de origem, como Galeria do Nei, Fronteira, Rota 18 e Jhonny & Jack Bar (sic), Laurence e seus companheiros, que prometem subir ao palco com material próprio, só estão esperando convites para se apresentar fora de casa. Se depender dos amantes do bom e velho rock, não vai demorar muito para os garotos botarem os pés na estrada.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Acendendo uma decisão inteligente

Assim dizia a garota que fazia uma das propagandas de uma marca de cigarros que eu, que não sabia fumar, mais curtia na tevê na segunda metade dos anos 1980: “Aqui estão todas as roupas, os discos que eu não comprei, os sábados que eu deixei de sair neste último ano. Só que agora... estou partindo para a viagem dos meus sonhos. Você acha que tô viajando demais nessa empolgação? Mesmo assim, ‘quelque chose nous avons en commun’.”. Não sabia porque, por mais que eu tenha comprado, filado ou aceitado cigarro, não tive competência para aprender a fumar, nem na infância, quando, a pedido do chefe da família com a qual minha mãe me deixou quando não teve condições de cuidar dos filhos, fazia cigarro em palha ou em papel fininho para enrolar fumo. Diferentemente de mim, o amigo que aparece fazendo pose de piromaníaco na foto começou a fumar por ansiedade, parando só depois de quase dez anos de terapia e um ano de tratamento com medicamentos. Meu ex-encarregado na primeira empresa onde trabalhei em Alphaville, entre os anos 1986 e 1991, deve se lembrar de quando ganhei o primeiro prêmio de uma campanha de frases contra o cigarro: um jogo de panelas. Eu havia acabado de voltar de férias quando meu chefe pediu que eu desse uma ajuda na enfermaria, que estava à frente de uma campanha antitabagismo. Apesar de incentivar meus colegas a participar da campanha, eu queria ficar fora dela. Não consegui, convencido principalmente por uns colegas que, mesmo sabendo que eu não passava de um reles peão de portaria, xérox e almoxarifado, viviam me parando para tirar dúvidas de português. Com a frase “Acenda uma decisão inteligente: apague a ideia de fumar”, em uma reunião realizada no restaurante administrativo, onde comi coxinha à vontade, ganhei um jogo de panelas. Infelizmente, elas ficaram guardadas durante tantos anos, se não me engano, em cima do guarda-roupa de minha mãe, que era uma pessoa que demorava para usar os presentes que ganhava, que, se eu não as tivesse comprado dela, teriam sido usadas só depois da morte dela, no fim de 2007.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Crianças às escuras

Um passarinho me disse – e não foi o dos 140 caracteres, não – que quem governa este mundo não é Deus, o que, por mais que eu tente ser cético quanto a quase tudo, não duvido, ou não teria acabado de ter mais uma boa prova de que parece que o Mal reina aqui, mandando uns fazermos da vida dos outros um inferno. Interrompendo a revisão da terceira e última parte da transcrição de uma palestra com um ex-ministro da Educação sobre a qual eu estava debruçado desde a madrugada, na última segunda-feira, última mesmo, deste fevereiro que já era, peguei o ônibus, cujo ponto final fica a uma quadra de minha casa, e fui levar minha filha ao centro de educação infantil (CEI) no qual, desde 2016, o trabalho tem me obrigado a deixar. Ao chegar à creche, porque é assim que o povo chamamos o CEI, cujo número de endereço (262), não me pergunte por que, é o mesmo formado pelo do dia (26) com o do mês (2), fui surpreendido com a lamentável notícia de que os fios que levavam energia do poste até a caixa de entrada haviam sido furtados, deixando as crianças às escuras. Muito triste, para não dizer chocado, tive apenas duas certezas: ou o lamentável furto era obra do Mal ou de alguma pessoa que não deveria ter nenhum filho, irmão, sobrinho, primo ou outra pessoa querida se beneficiando daquele estabelecimento, porque, se tivesse, certamente teria ido tirar cobre em outro lugar. Para não achar que minha criança era melhor do que as outras que haviam ficado mesmo à luz do dia, deixei-a na creche, já avisando que, se ela chorasse, voltaria para buscá-la. Mal aportei em casa, ouvi o telefone tocar. Na volta, deixando de pegar o ônibus de final 31, que demora mais do que o 10, acabei entrando no coletivo que me fez perder a última passagem à qual eu tinha direito de rodar a catraca sem pagar. Ainda bem que minutos antes eu havia colocado um pouco de crédito no cartão.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Passeio de 'lagartão'

Uma das situações embaraçosas pelas quais continuo passando neste mundo é ver uma pessoa falando comigo e eu não saber quem ela é, como aconteceu no último sábado, quando, para pagar uma promessa que eu havia feito a meus filhos, eu e a mãe deles fomos passear de “lagartão”, como eles chamam ônibus biarticulado, depois de deixamos nossa diligência o mais próximo do ponto onde iríamos embarcar, ir até o Terminal Dom Pedro II e voltar, no mesmo ônibus. Ao pedir a Mitsuo que se sentasse em um banco em que coubessem duas pessoas, vi que o cobrador estava acenando para mim, como se quisesse que eu não saísse do lugar ou não passasse na catraca. Sem entender por que ele estava tentando impedir nossa passagem para trás, até parecia que ele nos conhecia, coloquei meu filho no mesmo banco em que Amy estava, ajeitei-me em um assento vip – preferencial, sabe? –, ao passo que Priscilla resistia a sentar-se. Enquanto conversava com o cobrador, tentava me lembrar de onde ele me conhecia, não demorando muito para descobrir que ele morava – e deve continuar morando – em uma das duas casas de esquina da rua do imóvel onde, entre 2014 e 2016, eu e minha família passamos muito nervoso com a sujeira e o barulho de alguns vizinhos, e era amigo do morador da casa cuja conta de luz acabei pagando por causa de um erro de instalação elétrica. Contrariando minha expectativa, meu filho não estava com cara de quem estava gostando do passeio, mas, depois de saber que na volta desceríamos no museu, onde a mãe dele costuma levá-lo para brincar, mudou de humor. Já minha mulher, que anda pouco de ônibus, queria mesmo era ir para trás, como se o mal-estar que ela estava sentido pudesse acabar ou diminuir depois da catraca. Dito e feito, após agradecermos a gentileza do cobrador, paramos no museu, de onde só fomos embora quando as luzes dos postes começaram a ser acesas.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Quem me dera trabalhar só por esporte

Uma das pessoas mais discretas que conheço, minha mulher não curte nem um pouco ver nossos retratos exibidos fora do âmbito particular. A preocupação dela com nossa imagem é tanta que me deixa com a impressão de que tem medo de as pessoas acharem que, só porque estamos bem na foto, vivemos como bacanas, nadando em dinheiro. Quem me dera trabalhar só por esporte. Já o medo que ela tem de me ver levar uma canseira, como aconteceu com um dos últimos trabalhos que fiz, que foi pago só depois de três meses e de uma inevitável cobrança, ou, o que é pior, um calote na hora de ser pago, não é impressão minha, não, ou, quando me visse com um novo trabalho para fazer, não perguntaria se quem o está oferecendo é confiável, como se eu não achasse que quem me vê cortando gastos, economizando, andando pra burro atrás de ofertas, privando minha família até de pedir uma simples pizza no fim de semana, fazendo e vendendo lanches, imprimindo cópias de documentos, atendendo entregadores de mercadorias e prestadores de serviços na casa de vizinhos, fazendo tudo o que posso quando não estou revisando texto e transcrevendo áudio não sabe o duro que dou para manter as aparências. Bem mesmo eu estava na foto que acompanha este texto, que ela tirou no Santa Cruz, um dos shopping centers onde nos encontrávamos quando éramos solteiros, porque, antes de querer ver se eu era homem para sustentar uma família, tinha dinheiro para passear no fim de semana, frequentar livrarias, casas noturnas, restaurantes, viajar, comprar presentes e até emprestar, extravagância esta que acabou me custando o afastamento de muitas pessoas, porque poucas coisas são tão boas para fazer alguém cortar laços com amigos e parentes do que pedir emprestado ou, pior, emprestar dinheiro.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Quem quiser ser meu amigo


Neste ano (assim mesmo, sem omissão da preposição de tempo, porque, quando escrevo, não gosto de “comer” palavras, a não ser por esquecimento ou brincadeira), quero paz em meu coração, quem quiser ser meu amigo, mas amigo mesmo, não apenas virtual, que me convide para festas, uma das coisas que mais tenho sentido falta depois que a vida me deu uma família para cuidar. Como muitos sujeitos ruins da cabeça ou doentes do pé, eu não gosto de carnaval, mas, quando soube que no bailinho pré-carnavalesco que uma ex-colega de trabalho que eu não via havia mais de dez anos iria realizar no imóvel para o qual havia acabado de se mudar iria tocar David Bowie, Joy Division, Velvet Underground, Clash e Nina Simone, além dos vinis que os convidados quisessem levar para deitar e rolar, eu disse que, se a tia e o avô de meus filhos ficassem com eles, eu e a mãe deles iríamos à festa, condição esta que só durou até a dona da festa me deixar à vontade para levar as crianças. Apesar termos saído de casa mais tarde do esperávamos, fomos os primeiros a chegar à festa da fã do Bowie, cada um fantasiado de si próprio. Com um montão de coisas gostosas à mesa, Amy e Mitsuo foram logo se sentindo em casa, perdendo a vergonha até de, a convite, assistir tevê no quarto de nossa anfitriã, para a qual eu disse que nem parecia que não nos víamos fazia tanto tempo. Como era de esperar, a conversa e tudo o que a alimentava estavam tão bons que, para a alegria de meus filhos, achei melhor aproveitar um pouquinho mais, tendo tempo para ouvir Siouxsie and the Banshees e Peter Murphy, algumas das bandas cujos discos foram levados por uma convidada que disse que frequentava uma casa noturna onde, em meus tempos de solteiro, passei muitas noites, e encontrar um fã dos Beatles que conheço de outros carnavais, o último deles o aniversário de três anos de minha filha.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Ouvinte assíduo


Eu já curtia rock progressivo, velha escola em que se formaram, por exemplo, Emerson, Lake & Palmer, Focus, Genesis, Gentle Giant, Jethro Tull, King Crimson, Pink Floyd, Rush, Tangerine Dream, Triumvirat e Yes, antes de, bem ou mal, ler toda a enciclopédia do rock, o que certamente me levou a gostar de new age, gênero de que a jornalista Mirna Grzich foi grande porta-voz no Brasil, divulgando-o principalmente no “Música da Nova Era”, programa que ela apresentou entre 1987 e 1996, em São Paulo, indo ao ar pela Eldorado FM, todo domingo à noite. Ouvinte assíduo do programa, perdi a conta de quantos incensos queimei e de quantas fitas cassete comprei para gravá-lo, chegando até dispensar outras gravações só para não ir dormir sem tê-lo em minha fitoteca, como as de cursos de inglês, além de falar com a apresentadora sempre que ela tinha um tempinho para me atender, seja por telefone, seja na rádio, seja nos diversos locais da capital paulista onde ela realizava palestras e mostras de vídeo, um deles o Museu de Arte de São Paulo, onde, por volta dos anos 1990, tive o prazer de conhecer May East, cantora que no começo dos anos 80 fez parte da banda Gang 90 & Absurdettes. Se não me engano, a última vez em que vi a jornalista foi em... 1995 (?), no concerto que a banda gótica australiana Dead Can Dance realizou em São Paulo.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Dr. Jabaquara


Parece que Amy, que cresceu à base de mamadeira, perdeu o medo do Dr. Jabaquara, médico que, de tanto minha mulher e eu a levarmos ao hospital infantil onde, em 2015, quando faltavam alguns dias para ela nascer, o irmão dela passou quase um mês por causa de uma pneumonia, inventei para tentar fazê-la tirar o dedo da boca, porque, de vez em quando, a pego com esta mania, que deu trabalho para ela largar. Depois das várias chupetas que demos a ela, das puxadas de dedão nela e do caro esmalte amargo que passamos no dedão dela, foi o remédio que, surpreendentemente, nos ajudou a fazê-la livrar-se deste preocupante hábito. Primeiro, por deixar tortos os dentes e, depois, por levar para a boca os micróbios dos lugares nojentos com os quais o dedo tem contato, como celular, botão de elevador, apoio de ônibus, descarga de banheiro – “eca, que nojo!” –, o que nos obriga a lavar as mãos da criança mais do que naturalmente já fazemos. Para compensar, no último dezembro, quando comemorou três anos, minha filha estreou o assento sanitário, inclusive o do banheiro, recebendo muitos aplausos meus e de minha mulher, não só por fazer a compra de fraldas, as quais ela divide com o irmão, que ainda faz xixi na cama quando está dormindo, diminuir de seis para dois pacotes por mês (!), mas também por fazer a lição de casa antes de voltar para a escola.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Por que eu não gostava do Natal


O pisca-pisca que a menina de meus olhos havia pendurado na mirra que ficava na sala de visitas de nossa morada ainda nem havia sido guardado, o que eu esperava que tivesse sido feito até o Dia de Reis, quando se apagam as luzes que são acesas para lembrar o nascimento de Jesus, e eu já estava pensando no próximo Natal. Na verdade, já começo a pensar desde o dia 26 de dezembro, a fim de ter bastante tempo para fazer com que as pessoas que estão presentes em meu dia a dia queiram participar de minha festa ou que eu participe da delas, o que não é nada fácil, porque, achando que o inferno são sempre os outros, só tendo um espírito muito cristão, capaz de perdoar a quem o tem ofendido, ou atendendo às conveniências para, depois de passar o ano todo com alguém lhe tira a paz, você confraternizar o que quer seja. O Natal é a festa em que mais vejo mesas cheias e corações vazios, porque é impossível sentir o símbolo do amor cheio quando o próprio dono da festa, cuja família nem mesa deveria ter quando ele nasceu, não é convidado. Até os dez anos, idade com que devo ter chegado a São Paulo, eu não sabia o que era Natal, e, quando vim a saber, não gostei, porque, enquanto todas as crianças que eu conhecia ganhavam presentes de causarem inveja, como bicicletas e carrinhos a pilha, eu só ganhava um brinquedo de plástico sem graça. Já na hora da comida, em minha casa, nunca havia aquelas coisas gostosas que eu via na mesa dos outros, como frango, peru, carne bovina e suína assadas, panetones (hum, sempre gostei de panetone!), nozes e champanhas, eram sempre macarrão com molho de tomate, polenta e carcaça de frango cozida e o inesquecível vinho Natal, que sempre me fazia acordar com dor de cabeça. Foram tão poucos os dias de Natal que passei com minha mãe, a qual, infelizmente, sabia o verdadeiro significado deste dia bem menos do que eu, que, quando, no último Natal, vi minha mulher enfeitando nossa árvore, fiquei tão feliz que tomei a sidra com a qual brindamos a chegada de 2018 como se fosse o mais nobre dos vinhos.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A solidão é uma coisa terrível

Só existiu uma loja em Osasco, cidade onde morei por mais de 35 anos, à altura das que eu frequentava em São Paulo quando estava à procura de alguma coisa de rock alternativo: a Pulsar. Para quem ia para a capital, a loja ficava antes da ponte na avenida dos Autonomistas que corta o córrego Bussocaba. Foi nesta loja, cujo endereço consegui colocar na rota de distribuidores do “Contracorrente”, jornal punk de Brusque, em Santa Catarina, de que eu era colaborador, que comprei “Lonely Is an Eyesore”, coletânea que a gravadora independente inglesa 4AD lançou em 1987, quando completou sete anos de existência. A compilação, cujo título saiu de “Fish”, do Throwing Muses, primeira banda estadunidense contratada pela 4AD, reunia tanto nomes que eu já conhecia, como Cocteau Twins, Dead Can Dance e This Mortal Coil, projeto este de Ivo Watts-Russell, um dos fundadores do cultuado selo indie inglês, quanto nomes dos quais até então nunca havia ouvido falar, como Colourbox, Clan of Xymox, The Wolfgang Press, Throwing Muses e Dif Juz, uns mostrando sons suaves, sombrios, tribais; outros, alegres, dançantes. Só assistindo a novidades como aquela quando ia a alguma sessão de vídeo nas lojinhas de discos importados que havia no centro (de São Paulo), onde o máximo que eu podia comprar eram umas gravações caseiras feitas em fitinhas cassete, fiquei maravilhado quando um programa que passava toda noite na TV Gazeta exibiu o clipe de “Hot Doggie” (Colourbox), “Acid, Bitter & Sad” (This Mortal Coil), “Cut the Tree”(The Wolfgang Press), “Fish” (Throwing Muses), “Frontier” (Dead Can Dance), “Crushed” (Cocteau Twins), “No Motion” (Dif Juz), “Muscoviet Mosquito” (Clan of Xymox) e “The Protagonist” (Dead Can Dance), 
sem imaginar que um dia iria conhecer o responsável pela chegada da coletânea ao Brasil, o inglês Lawrence Brennan, dono da Stiletto, selo que, em acordo com a Gravadora Eldorado, lançou o trabalho de algumas das bandas de rock alternativo mais curtidas na segunda metade dos anos 80, como Nick Cave, Bauhaus, Joy Division, 
Durutti Column, Fall, Felt e A Certain Ratio. Em um telefonema para a redação da revista “Bizz”, acabei descobrindo que o Thomas com o qual eu falava fazia parte não só do Fellini, um dos grupos que eu minha turma mais curtíamos, mas também do “staff” da Stiletto, em cujo endereço, na Praça da Árvore, aportei duas vezes.

domingo, 31 de dezembro de 2017

O poema que Borges não escreveu


Era o último dia do ano quando Willian Bonner encerrou o “Jornal da Globo”, que ele apresentou de 1989 a 1993, com um poema atribuído a Jorge Luis Borges que dizia:

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. 
Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade,
bem poucas coisas levaria a sério. 
Seria menos higiênico, correria mais riscos, viajaria mais, 
contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, 
nadaria em mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, 
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. 
Eu fui uma dessas pessoas que viveram sensata e produtivamente
cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria. 
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. 
Porque, se não sabem, disso é feito a vida, só de momentos. 
Não percam o agora. 
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e
continuaria assim até o fim do outono. 
Daria mais voltas na minha rua, 
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, 
se tivesse outra vez uma vida pela frente. 
Mas, como sabem, tenho 85 anos 
e sei que estou morrendo.”

Assim que o novo ano começou, fui às livrarias ver se achava o livro em que se encontrava o emocionante texto creditado ao escritor argentino. Folheei livro por livro, mas não achei o que estava procurando. Nem poderia, porque, conforme acabei lendo e ouvindo mais tarde, “Instantes”, ou, no original, “If I Had My Life to Live over...” (“Se Eu Pudesse Viver novamente Minha Vida...”), era de uma escritora estadunidense chamada Nadine Stair (ou seria Strain?), publicado em uma antologia da Bantam Books. Na verdade, esta é a versão mais conhecida, porque, ao entrar no mundo virtual para me informar um pouco mais sobre o poema que Borges não escreveu, fiquei sabendo que a primeira, “I’d Pick More Daisies” (“Eu Escolheria Mais Margaridas”), é do escritor e cartunista também estadunidense Don Herold, publicada na revista “College Humor” por volta de 1935 e na “Seleções” em 1953.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Festa na lavanderia


Com tantos lugares mais prováveis para comemorar o aniversário, que ela não festejava no Brasil havia mais de vinte anos, minha amiga Hebe Kátia escolheu uma lavanderia. Deve ter sido por isso que eu, minha mulher e meus filhos nos sentimos em casa, pois, além de a Laundry Deluxe, que fica na rua da Consolação, no bairro dos Jardins,
oferecer o serviço de lavagem e secagem de roupas, que o cliente pode realizar por conta própria, é um lugar no qual, consumindo ou não, quem aporta pode curtir arte, decoração, música etc. Quando chegamos à festa, já encontramos à mesa da aniversariante Marcos Capelli, um dos frequentadores de uma festa que eu e um amigo fazíamos em Osasco entre 1991 e 1992, e outra Kátia, a Miranda, lendária hostess de algumas das casas noturnas que minha amiga frequentou até 1996, ano em que ela deixou o país pela segunda vez. Com um monte de lanches me esperando em casa para ser vendidos e meus filhos correndo e brincando de um canto a outro, fiquei só duas horas, tempo este que deu rever Glauco Felix, velho amigo de curtições musicais e literárias, Silmara de Oliveira, DJ da maioria das festas em que fui visto entre 2002 e 2010, ano em que o fim de minha vida de baladeiro já estava anunciado, e Renata Machado, uma das pessoas que mais vi nas últimas pistas em que coloquei os pés. Fazia tanto tempo que eu não curtia música fora de casa que só percebi que a pessoa que estava de camisa vermelha e gravata preta, igual aos integrantes da banda de música eletrônica alemã Kraftwerk na capa do álbum “The Man Machine”, de 1978, era não só o Tonyy, velho conhecido de muitas festas góticas e eletrônicas que frequentei, como a do dia 26 de junho de 1992, de que o projeto que eu ajudava a tocar participou, mas também um dos dois DJs responsáveis pela Forgive My Synths, festa voltada para a
música eletrônica que estava estreando na lavanderia. Antes de estar presente na mais importante das festas de minha velha amiga, eu havia comemorado três outros importantes aniversários de minha vida: o de três anos de minha filha, no dia 11, o de dez de namoro com a menina dos meus olhos, no dia 12, e o de trinta de amizade com a
mais apaixonada fã da banda escocesa Cocteau Twins que conheço. Eu era leitor da “SomTrês”, revista por meio da qual, entre1979 e 1989, muitos amantes da música se tornarem amigos, quando, em 1987, recebi uma carta de uma remetente chamada Hebe Kátia Gonçalves e Silva com a seguinte apresentação: “Meu nome é Hebe Kátia, tenho
1,64 m, 50 kg, cabelos pretos curtos, olhos castanhos, simpática, extrovertida, simples, gosto do New Order e um pouco do Joy Division. Gosto também da Susie (Siouxsie), The Cure, Toy Dolls, Cramps, Echo... Nacional, gosto da Escola de Escândalos e do Legião Urbana. Li seu artigo sobre a compra de letras de Joy e do New na revista ‘SomTrês’. Me interessei. Gostaria imensamente de meu corresponder com você. Já fui no show da Siouxsie e do Echo. Foi legal. Nunca fui num show do Legião. Não sou muito de ir em shows, mas, quando o show tem garantia de só valer a pena, eu estou lá. No show do Cure não fui, estava sem tempo, entende, né? Se você estiver a fim de me escrever, já sabe, eu responderei com o maior prazer. Ah, tenho só 16 anos, sou sagitariana típica. E você? Quantos anos, que signo? Me escreve, tá? Ou telefona: (...) 1123. A qualquer hora conveniente. Me manda uma foto na sua carta. Não entendi por que Edhson FM.”. Já estou com saudade mesmo antes de ela voltar para a terra dos Beatles e dos Rolling Stones, onde ela vive há dez anos.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Um show à parte

Acostumado à chuva de notícias falsas que cai no mundo virtual, quando, no último dia 2 de novembro, o neto mais velho de minha finada mãe me informou que Nilton, uma das pessoas com as quais mais tive o prazer de falar sobre música e literatura entre 1986, ano em que o vi pela primeira vez, e 2010, ano em que o vi pela última, havia morrido, eu queria acreditar que aquela triste notícia não fosse verdadeira, porque, apesar de, em resposta ao convite que mandei para ele dias antes de eu completar meio século de vida, ele não só ter declinado do convite, mas também ter dito que, se os próximos anos fossem tão decepcionantes quanto os que ele havia deixado para trás, ele não iria querer nem estar vivo, eu tinha esperança de que, em uma das voltas que ainda deveríamos ver o mundo dar, poderíamos nos reencontrar, principalmente à mesa ou ao balcão de algum boteco, como tantas vezes fizemos nos bons e velhos tempos de “drugues”, palavra do dicionário nadsat (consulte-o no fim do livro “Laranja Mecânica”, do escritor britânico Anthony Burgess) que pegamos emprestada para os integrantes da nossa turma. Até aquela visita, eu só o havia visto no dia 15 de agosto do mesmo ano de 2010, quando Baudelaire, a última banda dele, Mickey Junkies, banda de nosso amigo Carneiro, e outras se apresentaram na primeira edição de um festival em Osasco. Apresentado por Fernando, amigo que conheci na banca onde mais abasteci minha bagagem cultural, Nilton era um show à parte onde quer que se encontrasse. Em uma roda de amigos, ele falava com todos, dava boas gargalhadas, bebia, fumava, era uma das poucas pessoas que pareciam que nunca tinham problemas; no palco, era o centro das atenções não só porque era o vocalista das três bandas de que fez parte, mas também por causa de suas impressionantes performances, tendo sido o primeiro fã do Joy Division que vi imitando Ian Curtis, principalmente quando ele esteve à frente da Völga, primeira banda dele que conheci. Por falar em palco, duas vezes fui visto com ele em um: a primeira, em 27 de agosto de 1991, quando, na festa de meus 26 anos (na verdade, 27), eu, ele e uma amiga tivemos nossos minutos de R.E.M. cantando “The One I Love”, e em 8 de novembro do mesmo ano, quando, para ajudarmos nosso amigo Gabriel convencer o dono do Blaue Engel, um café-teatro com cara de anos 30 que havia em Osasco, a abrir as portas para uma festa que fazíamos na cidade, fizemos uma performance do começo ao fim de “The Protagonist”, do Dead Can Dance. Foi na mesma rua do café-teatro homônimo do filme de Marlene Dietrich que, à saída de lanchonete onde em, se não me engano, 1989 comemorei outro aniversário meu, ele e uma amiga que fazia aniversário no mesmo 10 de dezembro que ele foram fotografados pulando corda. Mas, mesmo que ele estivesse vivo, nunca mais iria ver as três obras que, para compensar alguma coisa que deve ter pegado emprestada de mim, foi louco de deixar comigo: “Alma Beat”, livro em que vários autores falam de uma das gerações que mais provocaram mudanças no comportamento dos jovens no mundo, o segundo volume de “Os Escritores”, compilação de entrevistas da revista literária inglesa “The Paris Review”, e “Café Bleu”, coletânea em vinil do Style Council que estava com ele no dia em que ele, Fernando, eu e outro “drugue” participamos de um programa de uma rádio em Osasco.

domingo, 19 de novembro de 2017

Fazer ou não fazer cachorro-quente, eis a questão

Vendo que a venda de cachorro-quente estava abaixo do que eu esperava, resolvi cortá-lo da lista de lanches que, para não depender só do meio salário mínimo que até o fim de 2018 devo receber de herança materna e do dinheiro dos bicos que comecei a fazer desde que a crise fez a quantidade de textos que eu revisava diminuir, tenho feito para ajudar a dona da casa onde moro a pagar as contas. Prometi à minha indispensável ajudante de cozinha que, assim que as últimas salsichas fossem à panela, acabou, não iria mais fazer o lanche, ou só voltaria a tentar vendê-lo depois de ir à capital brasileira do cachorro-quente, Osasco, cidade onde, de 1974 a 2010, comi os melhores cachorros-quentes de minha vida, a começar pelos do carrinho que ficava em frente à primeira escola onde estudei, para tentar ver o que, depois de, atendendo a pedidos, tirar do molho o pimentão e não deixar faltar o pão francês, eu precisava fazer para o famoso sanduíche importado da terra do Tio Sam cair no go(s)to de meus vizinhos, tanto quanto o x-salada, até agora, o mais pedido em meu recém-aberto negócio de vendas de lanches, que funciona no fim da tarde, principalmente de sexta-feira a domingo, quando o trabalho que pinga de fora e o que não falta de casa me deixam menos ocupado. Grosso modo, só me faltava fazer duas coisas para ver a venda de cachorro-quente (e dos outros lanches) aumentar: ter refrigerante, o que ainda não ofereci por causa principalmente da preocupação com a saúde de meus filhos, que não sossegam enquanto não esvaziam a garrafa, e uma máquina de cartão de crédito e débito, porque, depois do primeiro pedido da vizinha com a qual mais mantenho contato, até porque é a que mais vejo quando entro e saio de casa, perdi a vontade de tirar o lanche do cardápio, fazendo o possível para conquistar – e manter – o cliente não só por causa dos ingredientes e da higiene com que preparo a comida, mas também por causa de algo que não tem preço – o bom atendimento. Como, nem aqui nem na China, nenhum cachorro-quente é igual, na hora de fazer o meu, menos é mais, quanto menos longe eu fizer do tradicional – com pão (francês), salsicha (exceto meia-boca), molho de tomate (tomate mesmo, lavado, cortado, temperado e cozido), purê de batata, ketchup e mostarda, podendo até acrescentar vinagrete –, melhor. Faça seu pedido e bom apetite.

domingo, 12 de novembro de 2017

Barba, cabelo e bigode


A menina dos meus olhos não entende por que, dono de um topete com o qual ela já se acostumou desde que me conheceu e, o que é pior, sabendo que ela não gosta, continuo fazendo barba, cabelo e bigode. Eu disse a ela que, apesar de gostar do corte de cabelo que é uma das marcas registradas dos rockabillies, roqueiros que sempre me trazem boas lembranças dos outrora caipiras da roça, de onde venho, ou de cidade pequena, curto ficar careca desde que, para me livrar radicalmente dos piolhos, minha mãe me obrigava a encarar a tesoura. Só não fico mais vezes de cabelo raspado porque tenho preguiça, ou não demoraria tanto para fazer a barba, o que deixa minha mulher ficar irritada à flor da pele. Mas a primeira pessoa que não entende por que, quando ninguém espera, fico igual a, por exemplo, o professor Xavier, mentor dos X-Men, é o dono do salão onde, desde 2016, meu cabelo tem sido cortado. Apesar de achar que o dinheiro que gastarei com barbeador para manter minha cara totalmente lisa, no mínimo, duas vezes por semana será menos do que o que tenho gastado, inclusive pegando ônibus, para cortar o cabelo, não deverei voltar tão cedo ao ca-be-lei-rei-ro, pois, se a última desculpa que inventei para continuar careca não servir para convencer a menina dos meus olhos a ficar menos irritada comigo, ao menos vai servir para não me deixar tão preocupado na cozinha, lugar do qual cabelo deve ser mantido preso ou longe.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Perdidos no Espaço

Muita gente que frequenta, ou frequentou, danceterias em São Paulo sabe que o Projeto Autobahn, que existe desde 1993, é uma das mais bem-sucedidas festas dedicadas aos anos 80. O que pouca gente sabe é que a “antiga casa dos anos 80” à qual a página da famosa balada paulistana se refere é o Espaço Harry, festa em que Marcos Vicente, mentor do projeto homônimo de um álbum da banda alemã Kraftwerk, começou sua carreira de DJ. Achando que eu não tinha futuro, estava ferrado e malpago trabalhando no escritório de uma grande rede de supermercados, em 1991, quando, graças a Alice in Chains, Babes in Toyland, Hole, Mudhoney, Nirvana, Pearl Jam, Screaming Trees, Soundgarden, Stone Temple Pilots e outras bandas,  o rock viveu sua fase conhecida como grunge, resolvi sair do emprego que eu detestava mais por ter conseguido de favor do que pelo trabalho que eu fazia – cuidar de arquivo morto, passando o dia todo procurando e guardando notas e outros documentos fiscais. Foi nessa época que Gabriel Front, um vizinho de bairro que fazia parte da turma que desde 1985 eu procurava para curtir música, livros, quadrinhos e outros assuntos que não estavam no gibi, me chamou para ajudá-lo a fazer manutenção em um salão cujo locatário estava tentando fazer funcionar. Educados na velha escola do rock, Front e eu não tínhamos lugar menos convidativo para esperar a chamada de algum emprego do que em uma casa onde acabamos fazendo festa para pagodeiro. A fim de compensarmos nossos maltratados ouvidos e termos ânimo para continuar fazendo faxina, carregando caixas de cerveja, temperando e fritando frango a passarinho para a turma do pagode, pedimos ao arrendatário do estabelecimento um dia para abrirmos a casa para um projeto que se havia acendido em nossa mente. O nome que escrevemos na faixa que ficaria esticada na frente da casa no dia da festa foi Harry, homônimo de uma banda de rock eletrônico de que gostávamos muito, a qual, embora cantasse em inglês, era brasileira, da cidade paulista de Santos. O projeto estreou em 28 de agosto, dois dias depois de eu passar a segunda-feira toda colando cartazes e deixando convites nas lojinhas de discos das galerias do centro de São Paulo, trabalho este que encerrei visitando a redação da revista Trip, e um antes de eu comemorar mais um ano de vida. Parte integrante da trilha sonora de Laranja Mecânica, um dos filmes favoritos de nossa turma (tanto que foi depois de assistir a esta adaptação cinematográfica feita pelo diretor estadunidense Stanley Kubrick que acabei conhecendo boa parte da obra do escritor britânico Anthony Burgess), a primeira música da set list do Front foi a Nona Sinfonia de Beethoven. O Espaço Harry chamava a atenção não só porque nele tocávamos as músicas que ouvíamos e dançávamos nas casas noturnas alternativas paulistanas, mas também porque deixávamos à mesa várias publicações nacionais e estrangeiras (como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Veja, Melody Maker, New Musical Express, The Face, i-D etc., parecia uma hemeroteca) para os frequentadores verem ou lerem enquanto curtiam as músicas do cardápio, o que chamávamos de fast culture. Se, por um lado, eu, que era responsável pela divulgação do projeto, tentava impressionar com os cartazes e convites que criava com decalque, colando letra por letra, e os releases que redigia, por outro, Front, que cuidava da discotecagem, caprichava tanto na programação que se dava ao trabalho de listar todas as músicas, de forma que, se alguém quisesse saber que som havia rolado das 17 horas, quando religiosamente o DJ apertava o play, até às 23, quando era pressionado o stop, era só olhar no cardápio. Este serviço só era possível porque meu amigo levava gravado tudo o que havia programado para tocar, tendo apenas o trabalho de virar a fita cassete. Criado para oferecer música e informação, o Harry logo deixou de lado a segunda opção, porque, quando o público, formado principalmente por uma garotada que matava a aula de quarta-feira para curtir grunge e outros sons estranhos aos ouvidos da massa, começou a afastar as cadeiras para dançar, o jeito foi o DJ aumentar o som e deixar os “harriers”, como chamávamos os frequentadores, correrem para a pista. Mas a festa durou pouco tempo, porque, algumas semanas após a estreia, Front, que ficou tocando o projeto sozinho depois que fui chamado para trabalhar como temporário no escritório de outra rede de supermercados, teve de entregar as chaves do estabelecimento, que ficava na avenida Santo Antônio. Das duas, uma: ou meu amigo esquecia a festa ou procurava outro lugar para fazê-la. O primeiro lugar para o qual ele tentou levar o projeto foi o Blaue Engel, um café-teatro que, se eu não tivesse visto, não teria acreditado que havia em Osasco, uma vez que era uma façanha bancar uma casa de espetáculo em uma cidade tão apagada culturalmente, principalmente sendo produtor independente. Apesar de a apresentação que fizemos no dia 8 de novembro, quando subi ao palco para participar de uma breve encenação em que nosso amigo Nilton foi “the protagonist”, ter recebido alguns aplausos, inclusive por causa do fundo musical com Dead Can Dance, não conseguimos convencer os produtores do cinematográfico estabelecimento com cara de anos 30 a abrir as portas para nossa festa. Na mesma rua do café-teatro homônimo do filme de Marlene Dietrich, existia um restaurante onde anos atrás havia funcionado uma lanchonete onde os “drugues”, como chamávamos nossos amigos de curtições culturais, costumavam realizar muitos happenings, animados encontros alimentados com cervejas, beirutes, panquecas e muita conversa fiada. Foi lá nossa segunda estreia, graças ao contato com o DJ da casa, que gostou 

tanto de conhecer nosso projeto que acabou se tornando parte integrante dele. Àquela altura, a discontecagem já estava nas mãos de João (tocando música gótica e eletrônica), Glauco (fazendo as sessões psicodélicas e de guitar bands), Beto e Gulherme (trazendo sons eletrônicos) e Marcos Vicente (revivendo o techopop e o new romantic), deixando Front bastante à vontade para exercer seu papel de mestre de cerimônias. Embora atuassem nos bastidores, outras pessoas muito importantes na história do Harry foram nossos amigos Nilton, que, além de ajudar a receber o público, agitava na pista, e Adriana, que digitava e enviava para a imprensa os releases que eu redigia. Duas festas realizadas naquela casa, da qual fomos obrigados a sair depois da denúncia de que nosso barulho estava incomodando a vizinhança, merecem ser lembradas: a do dia em que foi sorteado um frango assado, ganho pela mãe de uma das frequentadoras mais cobiçadas da festa, e a do dia em que, enfurecido por causa das velas acesas na pista durante uma sessão gótica, um dos DJs não oficiais meteu-lhes um chute! O terceiro endereço não poderia ser mais convidativo do que uma garagem na Vila Yara onde no fim de semana funcionava um bar frequentado por amantes de música sertaneja. Mas foi no palco deste lugar nada agradável aos roqueiros que um dia desligamos o toca-CDs para ver Mickey Junkies, a banda mais famosa do cenário alternativo osasquense, reunir o maior público da festa, deixando a garagem tão cheia que algumas pessoas tiveram de curtir o show do lado de fora do estabelecimento, ao fim do qual, sem muito dinheiro no bolso, pagamos umas cervejas para a banda de nosso amigo de alma beat Rodrigo Carneiro. Acho que já estávamos fora deste muquifo no sábado em que, a pedido de nosso sócio “Duda” (até hoje não sei o nome dele), atravessei a noite colocando umas fitas e uns discos de sertanejo para rodar, quando, mesmo em meio à fumaça das frituras, tive o prazer de reservar uma mesa para uma convidada muito especial: minha mãe. Nossa quarta parada foi perto da terceira, no Glorya Delli Club, outro lugar onde Front e eu não teríamos conseguido espaço para o Harry sem a ajuda de nosso empenhado sócio. Quando nosso projeto chegou ao Glorya, uma casa noturna onde se realizavam vários tipos de festas, já estava rolando no domingo, dia em que os amantes de sons alternativos poderiam ter todas as desculpas para não ir a nossa festa, menos dificuldade de condução, já que a mais bonita das casas onde os harriers já haviam aportado funcionava perto de um terminal de ônibus, facilitando a vida não só de quem morava em Osasco e região, mas também de quem se encontrava em São Paulo. A estreia do projeto foi tão boa que deixou gravada a participação de Front e Duda no Lunch Break, um programa da “rádio dance” Nova FM que a cada edição trazia DJs das mais diferentes festas para apresentar algumas músicas de sua set list. Por falar em rádio, não dá para esquecer o sábado em que, depois de me atender em sua loja de CDs, o patrocinador do programa que Kid Vinil tinha na autoproclamada “college radio” Brasil 2000 impediu que o apresentador divulgasse nosso projeto no ar. A convidativa casa noturna na Vila Yara deveria ter sido o último endereço do 
Harry se, depois de meses sem fazermos barulho em nenhum outro lugar, não tivéssemos sido informados de que havia um bar no Km 18, um bairro afastado do centro de Osasco, cujas portas poderiam ser abertas para nós. Entretanto, a falta de público nesse novo endereço fez nossa festa acabar mais cedo do que esperávamos. Até conhecermos nossa última parada, Front e eu levamos nossos DJs para discotecar 
no Armageddon, um clube de góticos e eletrônicos na rua Augusta, e agendamos uma discotecagem no Cais, uma danceteria na praça Roosevelt frequentada pelo mesmo público da casa noturna da Augusta. Se a festa do dia 28 de agosto de 1992, quando o projeto completou dois anos, era para ser a última, acabou não sendo, porque, na última hora, achei melhor esquecer aquela história de projeto e ir dormir, deixando todos me esperando à porta da inesquecível casa noturna da Roosevelt. Em 2005, até tentei voltar com o projeto, desta vez em uma casa de metaleiros no centro de Osasco, mas, vendo que nosso público já não estava mais “cheirando a espírito adolescente”, havia mudado de lugar ou de gosto, só perdi meu tempo – e meu dinheiro – com duas festas.


domingo, 27 de agosto de 2017

Quando começa a vida

Deve ser para não fazer ninguém querer morrer antes do tempo que ganhou para viver que Deus, ou quem quer que nos tenha trazido a este mundo, só nos deixou saber quando a vida começa. A minha começou, se eu considerar minha certidão de nascimento do lado materno, há 52 anos, um a menos do que a idade que meu pai, que só vim a conhecer 33 anos depois de minha chegada a este mundo, disse que realmente tenho, o que não alivia nada, porque, depois dos 40, quando começa a vida para quem quer fazer de conta que ela começa nesta idade, por mais que você tente disfarçar as marcas e o peso do tempo, vai notar que nada mais será como antes, a força da gravidade vai ser implacável, não vai deixar nada em cima, como os cabelos, que, se não caírem, vão perder a cor original até ficarem brancos. Mas o que dói mais depois que comecei a descer a serra, saí da casa dos tiozões para entrar, pelo resta da vida, na dos tiozinhos, não são as inevitáveis quedas, é a saudade de minha infância, quando eu podia fazer tudo, inclusive o bem, que minha inocência não me deixava ficar com nenhum peso na consciência, e de minha adolescência, quando, já não inocente de nada, eu só me preocupava comigo, com ou sem causa, rebelando-me contra tudo e contra todos, botando tudo pra f... fora, porque só quem não tem boas lembranças destas duas fases da vida não sente saudade delas. Se eu soubesse que, quando me aproximasse da velhice, fase que, para enganar algum idiota, foi criada a expressão “melhor idade”, iria sentir tanta vontade de fazer tudo o que eu tinha coragem e força para fazer quando era criança e adolescente, não teria, como maria vai com as outras, tido tanta pressa de ficar mais velho. Ainda bem que arrependimento não mata, ou eu já teria morrido por não ter feito o que deveria ter feito, embora já tenha feito coisas que me fizeram ficar mais arrependido por tê-las feito do que teria ficado se não as tivesse feito. Só em ver, por exemplo, o preço pela hora da morte que as empresas de planos de saúde cobram, a quantidade de drogas que as farmácias vendem, a chiadeira que pessoas nas filas da vida fazem, o sono que os passageiros dos ônibus sentem e a impaciência que todos temos para com os velhos, já acendo uma vela para que os muitos anos de vida que algumas pessoas ainda me desejam não sejam mais do que o tempo que ainda espero viver. Por tudo o que já vi e vivi até aqui, se minha permanência neste mundo tivesse sido determinada por mim, certamente eu iria querer ficar neste mundo só enquanto me sentisse vivo, não dependendo da ajuda de nada nem ninguém, a não ser em caso de gentileza ou respeito, não de obrigação ou privilégio. Já que a infância é a idade das interrogações e a da velhice, das negações, espero que, quando passar dos 60, se é que passarei, eu me negue a pensar que, só porque terei vivido mais tempo, serei melhor do que era quando jovem e muito mais quando criança, a não ser melhor para esconder meus medos, minhas vergonhas, meus sonhos, minhas frustrações, meus preconceitos e tantas outras coisas que só deixarei de lamentar no dia em que minha vida chegar ao fim.

sábado, 26 de agosto de 2017

Quando entrar setembro

Está muito bonita a mirra que ganhei de minha amiga Telma Franco quando completei, consoante meu registro materno, 47 anos e, o paterno, 48, que, para não deixar para segunda-feira, dia nada convidativo para quem trabalha ir a festa, nem para o próximo domingo, que já seria outro mês, excepcionalmente, comemorei, com alguns convidados, na véspera. Graças à ajuda de minha velha amiga Liliane e de sua mãe, dona Gedalva, esta cuidando da planta quando, em dezembro de 2012, me mudei de Embu das Artes, onde, um ano antes, comecei minha vida de casado, e aquela, quando sua mãe se mudou da casa em que foi minha vizinha de quintal. A amizade entre mim e Liliane se iniciou em 1983, quando, depois de ouvir o apresentador de um programa de uma rádio de Osasco de que às vezes eu participava, inclusive no estúdio, falar de mim, começou a trocar correspondência comigo. Mas acho que a árvore, cujo nome de provável origem semítica quer dizer  amargo, vai ficar muito mais bonita quando, como diz a introdução de uma música de um cantor do mesmo estado da amiga que me presenteou, entrar setembro, mês em que a estação das flores chega ao hemisfério sul. Será a primeira vez que ela estará florida desde que chegou a minhas mãos, em abril, mais de quatro anos depois de eu prometer que ela só voltaria para mim quando eu, que, desde que tive o atrevimento de levar a menina dos meus olhos para morar comigo, já havia feito e desfeito minhas trouxas em três casas de aluguel, visse minha família em uma casa realmente nossa, sonho que, graças a quase 99% de esforço de minha admirável mulher, se tornou realidade no segundo semestre de 2016, quando nos mudamos para o imóvel do qual só espero ir embora quando meu tempo neste mundo acabar. Tão bonita quanto a planta que tenho como símbolo da abençoada conquista de minha família, tanto que carinhosamente a chamo de árvore de Josué, em frente à qual de vez em quando me curvo para orar, está a muda que plantei para dar a Telma, o que deverei fazer assim que ela tiver um tempinho para vir a meu lar, doce lar tomar o cafezinho com pãozinho de queijo que eu e minha família gostaríamos de servir a ela.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Onde mulher bonita não paga

Uma dúzia de laranja, duas de banana, porque pobre não compra estas frutas por peso, meio quilo de maxixe, dois de tomate, metade de uma abóbora, uma abobrinha, um pimentão (eu disse pimentão, não pimentinha), dois chuchus, uma mão de pimenta-dedo-de-moça e um maço de coentro, porque nordestino vive sem salsinha, mas não sem coentro. Onde é que você pode comprar tudo isso por 14 reais? Para você ter uma ideia, grosso modo, foi o mesmo valor que gastei por um pedaço de melancia e menos de uma dúzia banana em um mercado de frutas onde, a caminho de um parque ao qual meus filhos costumam ir para brincar, minha mulher parou outro dia. Só na feira, onde já ouvi dizer que mulher bonita não paga, mulher que não gasta o dinheiro do marido deixa-o gastar com as outras e, recentemente, mulher que não tem 2 reais deve largar o marido. Pelo menos em duas das feiras aonde tenho ido toda semana, a de terça e a de sábado, ambas me fazendo andar pra burro, já que, deixando para ir na hora da xepa, quando alguns produtos ficam baratos pra chuchu, não tenho tempo para esperar o ônibus e, mesmo que tivesse, iria a pé, não só para economizar dinheiro, mas também para diminuir meu sedentarismo. Às vezes, principalmente quando passo em uma lojinha para comprar fraldas ou em um mercado para aproveitar alguma oferta, volto para casa de carro, esperando minha condutora em frente a um bar, uma vez que ela insiste em ir me buscar. Se a preguiça fosse o pior dos pecados capitais que cometo, até que, para suar menos, eu poderia deixar para ir à feira da sexta, que fica perto de minha casa, ou a de domingo, que fica no fim da descida de minha rua, mas não gosto de nenhuma das duas, especialmente desta última, que é muito pequena, com apenas uma dezena de barracas. Só não fui mais vezes à da quarta, a preferida de minha mulher, e a outra de sábado, perto da casa do pai dela, feira à qual já tive o prazer de ir com meus filhos comer pastel, porque ficam muito longe, obrigando-me a pegar ônibus.

domingo, 13 de agosto de 2017

Entrega em domicílio errado

Eu tinha razão quando, para não correr o risco de receber nenhum cumprimento indesejável, como aqueles que só recebo em dias de festas, não ia trabalhar no dia de meu aniversário, porque, no dia em que, não sei por que, não faltei ao trabalho, fui surpreendido com uma festa, realizada por meus colegas de lida. Bom para participar de festas dos outros, mas péssimo quando a festa é para mim, fiquei tão feliz com a surpresa que, sem querer ser indelicado nem mal-agradecido, acabei fazendo minha colega Telma, principal responsável pela reunião mais convidativa do departamento em que eu trabalhava e uma das pessoas mais admiráveis que conheço, chorar, não sem, depois de esconder meu lado lobo da estepe, deixar de pedir desculpas e agradecer aos convidados e aproveitar a festa. O último dia de julho de 2017 não foi o dia de meu aniversário, mas ganhei um presente tão inesperado quanto o mencionado acima que foi como se tivesse sido. Na verdade, eu esperava um presente, uma vez que, como se não bastassem tudo o que já mandou para mim ou para minha família, uma amiga com a qual eu havia falado dias antes tinha dito que iriam chegar umas coisas para meus filhos, mas não uma compra de supermercado! Não, como eu disse aos entregadores que pararam em meu domicílio, a compra não era para mim, pois nem eu nem minha mulher havíamos feito nenhum pedido. Nem poderíamos, já que o dinheiro que sobra depois do pagamento das principais contas, como água, luz, gás e telefone, mal dá para sair dos mercadinhos de que sou freguês com umas poucas sacolinhas com arroz, feijão, cebola, alho, óleo, café, açúcar, leite (nunca vi tanta caixa em meu armário), pão e margarina, produtos que nunca podem faltar em minha casa. A compra, na qual havia azeites, maminha, costela suína, filé de frango, inclusive empanado, linguiça para churrasco, produtos que meu poder aquisitivo deixa fora de minha listinha de gastos no mercado, só poderia estar em nome de outra pessoa. E estava, no nome de uma amiga que conheci nos bailes da vida, que, apesar de ter o mesmo sobrenome que eu, mora em outro endereço, para o qual acabou de se mudar. Tão agradecido quanto constrangido, telefonei para ela, que me revelou que a compra era uma doação (esta foi a palavra que ouvi) de uma amiga nossa, a qual, por causa de um, digamos, entrave diplomático, pediu “a little help from her” para me fazer uma surpresa. Mas por quê? Está certo que, desde que a quantidade de trabalho que chegava a minha mesa diminuiu, tenho enfrentado algumas dificuldades para colocar o pão na mesa de minha família, já tendo até aceitado uma cesta básica de uma amiga, oferta da qual, muito agradecido, abri mão depois de alguns meses, mas, graças a minha mulher, que, quando a discussão é quem tem mais dinheiro para pagar as contas, tem sido o homem da casa, ainda não estou contando com a ajuda dos outros para abastecer minha despensa (“O Senhor é meu pastor...”). Uma das pessoas que mais fizeram minha dívida de gratidão aumentar, principalmente depois que me tornei pai, tanto que já nem tenho mais cara para pedir nem para aceitar mais nenhuma ajuda, minha nobre amiga me disse que a ideia de me fazer uma surpresa, para cuja realização ela não esperava que fosse contar com a ajuda de ninguém, surgiu depois que escrevi sobre o dia em que levei minha família para tomar café em uma padaria de bacana. Segundo ela, se eu conseguisse economizar nas compras de mantimentos, poderia ir com minha família à padaria e comer à vontade. Com o desgosto que, em termos de trabalho, tem sido o mês em que fico mais velho, comer à vontade vai ser impossível, mas não posso deixar de atender ao pedido que minha generosa amiga me fez – levar minha família para tomar café outra vez na padaria, não necessariamente na mesma –, até porque, como eu disse a minha mulher, que queria entender como é que eu estava pensando em dar uma de bacana em um momento em que estamos passando por uma crise financeira tão grande, o que vou pendurar em meu ainda não cancelado cartão de crédito vai ser um décimo do valor do inesperado presente com que minhas amigas me fizeram chorar e agradecer de alegria.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A árvore de Josué


Pai de dois filhos, já posso escrever um livro, porque acabo de plantar uma árvore, na última terça-feira, quando, para não perder o galho quebrado acidentalmente da árvore de Josué, como carinhosamente chamo a planta em volta da qual, quando a preguiça e o cansaço não se apoderam de mim, falo com Deus, mais para agradecer do que para pedir alguma coisa. O lugar escolhido foi a praça perto de minha casa, onde posso levar água para ela, o que, até aqui, já fiz duas vezes, na segunda, aproveitando para plantar as recém-brotadas sementes de girassol que Amy e Mitsuo trouxeram de um dos passeios que eles fizeram nas últimas férias escolares. Pela cara de algumas folhas, cujo verde ainda se mantém vivo, vi que a planta pegou, como pegou o galho que plantei para dar a uma amiga e devem ter pegado os que dei a outras. Além disso, poderei andar entre árvores altíssimas, admirar os pés de café, que sempre tive vontade de ter no jardim de minha casa, abacate, ameixa, banana, goiaba, jaca (aliás, até eu me mudar para perto do zoológico, nunca tinha visto um pé desta fruta em São Paulo) e morango silvestre, algumas das delícias que já encontrei, enquanto meus filhos poderão se divertir nos dois únicos brinquedos que acho que o tempo e as pessoas ainda não destruíram totalmente, o balanço e o escorregador. Se eu não tivesse visto plantas pisadas e lixo jogado, rastros de que as pessoas que frequentam a praça ou passam por ela não ajudam a mantê-la mais convidativa, iria aproveitar um pedacinho da terra para fazer uma horta, plantando cebolinha, coentro, salsinha, abóbora, chuchu, quiabo etc. Mesmo assim, alguns amantes da flora, como uma senhora e um senhor com os quais conversei na primeira vez em que eu e minha família fomos à praça, continuam cuidando do lugar como se estivessem cuidando do quintal da casa deles.

domingo, 23 de julho de 2017

Dando uma de bacana

A fim de pagar a promessa que eu havia feito quando minha mulher perguntou o que eu achava de, um dia, irmos tomar café em uma padaria, aproveitei um dos 15 dias de férias dela para dar uma de bacana em uma padaria, ou, como está escrito na frente do estabelecimento, casa de pães, perto da estação do metrô Saúde, já que achei a perto da ruazinha onde, quando morava na casa dos pais, a menina dos meus olhos mais me viu sair desesperado para não perder a última condução para Osasco mais convidativa do que a da que tem as mesmas iniciais de meu alter ego, também na Saúde, que ela descobriu na volta do trabalho. Com o dinheiro dos textos que reviso e dos bicos que tenho feito mal dando para pagar as contas, eu não poderia me dar ao luxo de estar em um lugar onde minha situação financeira não me deixa sentir em casa, mas, como eu não devia nada a ninguém, a não ser os favores que os outros me fazem, muitos dos quais impagáveis, não me privei do prazer de levar minha família para, pelo menos, tomar um café fora de cara, especialmente minha mulher, que na correria do dia a dia vai trabalhar sem tomar café. À vontade para pegar o que quisesse, depois de servir às crianças, Priscilla pegou um café expresso, duas ou três fatias de frios e a mesma quantidade de minipães, inclusive de queijo, enquanto, para acompanhar os mesmos pãezinhos e frios, pedi um café com leite e um pão francês com manteiga, ou margarina, na chapa. Como gosto de café queimando a boca, pedi a uma atendente que, por favor, esquentasse o que eu havia pegado. Com nossa casa para comer melancia, Mitsuo, cujo suco de laranja acabou ficando para Amy, que deve ter gostado muito do bolo de chocolate, preferiu a padaria, comendo só um dos dois pedaços que peguei. Sentindo-me Gary Cooper em O Galante Mr. Deeds ou Paul Hogan em Crocodilo Dundee, só fiquei sabendo que não precisava erguer a mão para ser atendido, era só apertar um botão sobre o porta-guardanapos, quando uma atendente trouxe a água que pedi para Mitsuo, da mesma forma que minha mulher só ficou sabendo que não precisava deixar nossa diligência na rua de trás à saída do estabelecimento. A última vez em que eu havia me servido de um café da manhã tão gostoso fora de casa foi no começo do ano, quando, sempre gastando até o último centavo para tentar agradar nossa família, Priscilla aproveitou as férias para passar metade de uma semana em uma pousada em Serra Negra.